Miomas e adenomiose são condições diferentes, mas causam sintomas parecidos e podem aparecer na mesma paciente. Entender qual delas explica o seu quadro — ou se as duas coexistem — muda a leitura dos exames e as opções de tratamento.
Miomas e adenomiose juntos: como diferenciar e o que muda quando coexistem
Miomas (leiomiomas) e adenomiose estão entre os diagnósticos uterinos mais frequentes — e entre os mais confundidos. Os sintomas se sobrepõem, as duas condições podem coexistir e um mesmo exame nem sempre distingue uma da outra com clareza. Antes de decidir qualquer tratamento, o primeiro passo é saber o que está causando os sintomas: mioma, adenomiose ou a combinação das duas.
Esta página é comparativa: reúne as diferenças entre as duas condições, o que muda quando aparecem juntas e como a distinção é feita nos exames. Se o seu caso já está definido como uma condição só, o aprofundamento está nas páginas dedicadas de mioma uterino e de adenomiose.
Resposta direta: mioma e adenomiose são a mesma coisa?
Não. O mioma é um nódulo benigno formado pelo próprio músculo do útero; a adenomiose é a infiltração de tecido semelhante ao endométrio dentro da parede muscular uterina. As duas causam sangramento aumentado, cólica e aumento do volume do útero — e podem coexistir: em úteros retirados por sangramento uterino anormal associado a miomas, a adenomiose apareceu no exame do tecido em 45,9% dos casos (Lonky et al., PLOS ONE, 2023), e até cerca de metade das mulheres com adenomiose também tem miomas (Schrager et al., American Family Physician, 2022). A distinção é feita com ultrassonografia transvaginal especializada e, quando resta dúvida, ressonância magnética da pelve. Só a avaliação médica individual define diagnóstico e conduta.
Miomas e adenomiose podem aparecer juntos
Reconhecer que as duas condições estão presentes muda a interpretação dos sintomas e dos exames — e é uma das principais razões para a avaliação ir além do laudo isolado. Em uma coorte de mulheres submetidas a histerectomia por sangramento uterino anormal associado a miomas, a adenomiose foi identificada no exame histopatológico em 45,9% dos casos (Lonky et al., PLOS ONE, 2023). Em outras séries de histerectomia por miomas, a prevalência relatada varia de 15% a 57%, e até cerca de metade das mulheres com adenomiose também apresenta miomas (Schrager et al., American Family Physician, 2022).
A combinação costuma se traduzir em mais dor. Em um estudo caso-controle, mulheres com adenomiose associada a miomas relataram mais dor pélvica (odds ratio 3,4; IC 95% 1,8–6,4) e dismenorreia mais frequente (53% contra 37,3%), apesar de terem miomas menores — mediana de 1,5 cm contra 3,0 cm no grupo sem adenomiose (Taran et al., Human Reproduction, 2010). Daí a pista mais útil na prática clínica: dor importante que não corresponde ao tamanho ou à posição dos miomas levanta a hipótese de adenomiose associada.
A coexistência também torna o diagnóstico mais difícil. Na mesma coorte de 2023, o ultrassom bidimensional feito antes da cirurgia identificou mal a adenomiose quando havia miomas: sensibilidade de 47,4% e especificidade de 50,0%, com valor preditivo positivo de 54,0% e negativo de 43,4%. Por isso, na presença de miomas, a suspeita de adenomiose costuma exigir ultrassonografia dirigida, com critérios específicos, e ressonância magnética quando a dúvida persiste.
Quando um único diagnóstico não explica todos os sintomas
Dor desproporcional ao mioma
Cólicas intensas ou dor pélvica que não correspondem ao tamanho, ao número ou à posição dos miomas encontrados. É o cenário em que a adenomiose associada mais costuma ser investigada.
Sangramento que não cede
Sangramento abundante ou anemia que persistem mesmo depois do tratamento direcionado aos miomas — sinal de que outra causa pode estar contribuindo para o quadro.
Útero aumentado sem explicação
Volume uterino aumentado com achados de imagem que os nódulos, sozinhos, não explicam. A parede do útero precisa ser avaliada especificamente, e não apenas descrita.
Dor que persiste após o tratamento
Quando a dor continua depois de uma cirurgia ou de um tratamento prévio dos miomas, vale revisar se a adenomiose não estava presente desde o início.
Laudos que divergem entre si
Descrições que oscilam entre mioma, adenomioma e adenomiose de um exame para outro ou entre examinadores. A diferença entre esses achados muda o planejamento.
Dificuldade para engravidar
Tentativas sem sucesso ou perdas gestacionais em quem tem achados compatíveis com as duas condições. Aqui, a ordem das decisões importa tanto quanto a escolha do tratamento.
Diferenças entre mioma e adenomiose, ponto a ponto
Miomas são nódulos benignos formados pelo músculo do útero (miométrio). Podem ser únicos ou múltiplos e crescer para dentro da cavidade uterina, permanecer na parede ou projetar-se para fora — e é essa localização, mais do que o tamanho, que costuma determinar os sintomas. A adenomiose é a presença de tecido semelhante ao endométrio dentro da parede muscular, de forma difusa ou localizada; quando forma um nódulo delimitado, recebe o nome de adenomioma, justamente o achado mais confundido com o mioma.
A confusão entre as duas vem dos sintomas parecidos — sangramento aumentado, cólicas, aumento do volume uterino e anemia — e do fato de poderem coexistir. A tabela abaixo resume o que as diferencia na prática:
| Aspecto | Miomas | Adenomiose |
|---|---|---|
| O que é | Nódulo benigno formado pelo músculo do útero | Tecido semelhante ao endométrio infiltrado no músculo do útero |
| Forma | Em geral lesões delimitadas, únicas ou múltiplas | Pode ser difusa ou focal; quando forma nódulo, chama-se adenomioma |
| Sintoma predominante | Sangramento aumentado, compressão e aumento do útero | Cólica progressiva, dor pélvica e sangramento aumentado |
| Impacto na fertilidade | Depende principalmente da localização, sobretudo se deforma a cavidade uterina | Depende da extensão; pode afetar a implantação e a evolução da gestação em alguns casos |
| Diagnostico | Ultrassom e/ou ressonância; localização organizada pela classificação FIGO | Ultrassom com critérios específicos (MUSA) e/ou ressonância |
| O que orienta a conduta | Localização, sintomas, tamanho, número de nódulos e desejo reprodutivo | Sintomas, extensão da doença, idade e desejo reprodutivo |
| Preservacao do utero | Frequentemente possível com miomectomia | Depende da extensão, dos sintomas e do desejo reprodutivo |
Como diferenciar mioma de adenomiose nos exames
O diagnóstico começa pela escuta clínica: o padrão do sangramento, a intensidade e o momento da dor, o impacto na rotina, o histórico reprodutivo e os tratamentos já tentados pesam tanto quanto a imagem. A ultrassonografia transvaginal é o primeiro exame — nos miomas, define número, tamanho e localização dos nódulos; na suspeita de adenomiose, procura alterações características da parede uterina, descritas por consenso internacional como sinais diretos e indiretos (critérios MUSA, 2022).
A ressonância magnética da pelve entra quando a ultrassonografia não esclarece se determinada alteração é mioma, adenomioma ou adenomiose, quando as duas condições parecem coexistir ou quando é preciso mapear a anatomia antes de uma intervenção. Como referência de desempenho no diagnóstico da adenomiose, a ultrassonografia transvaginal tem sensibilidade em torno de 83,8% e especificidade de 63,9%, enquanto a ressonância chega a 77% de sensibilidade e 89% de especificidade (Schrager et al., 2022) — números que, como visto acima, caem quando há miomas no caminho. Nos miomas, a localização é organizada pela classificação FIGO, detalhada na página de mioma uterino.
O que a avaliação de imagem precisa responder
Mais do que confirmar um nome, o exame precisa responder às perguntas que mudam a conduta:
- quantos miomas existem, com que tamanho e em que localização (classificação FIGO);
- se a parede uterina apresenta sinais diretos de adenomiose, como cistos e ilhas no miométrio, ou apenas sinais indiretos;
- se há um nódulo delimitado que corresponda a adenomioma, e não a mioma;
- se a cavidade uterina está deformada, o que importa especialmente para quem deseja engravidar;
- se existem sinais de endometriose associada, que pode acompanhar as duas condições;
- se o conjunto dos achados explica a intensidade dos sintomas relatados.
Quando a resposta à última pergunta é não, a investigação ainda não terminou. Sinais indiretos isolados, por exemplo, não bastam para firmar o diagnóstico de adenomiose, e a interpretação varia entre examinadores — motivo pelo qual o exame dirigido, feito por quem trabalha com esses critérios, faz diferença.
O que muda no tratamento quando mioma e adenomiose coexistem
Quando as duas condições aparecem juntas, a decisão não é escolher um tratamento para cada diagnóstico. É entender qual delas explica melhor os sintomas e qual precisa, de fato, ser tratada. Retirar um mioma pode ser adequado quando ele responde pelo sangramento, pela deformação da cavidade ou pelos sintomas de compressão — mas a adenomiose associada ajuda a explicar por que, em algumas pacientes, a dor ou o sangramento parecem desproporcionais aos miomas encontrados. Reconhecer as duas antes da intervenção muda a expectativa sobre o resultado.
A avaliação integra, por isso, história clínica detalhada, revisão dirigida dos exames de imagem (diferenciando mioma, adenomioma, adenomiose e endometriose), análise da cavidade uterina e, quando há desejo reprodutivo, a avaliação da reserva ovariana. Alternativas conservadoras são discutidas antes de qualquer indicação cirúrgica; quando a cirurgia é indicada, definem-se a via minimamente invasiva e o planejamento da recuperação. As opções específicas de cada doença estão detalhadas nas páginas de mioma uterino e de adenomiose.
Mioma, adenomioma, adenomiose e endometriose: quem é quem

Mioma uterino
Nódulo benigno formado pelo músculo do útero, único ou múltiplo. A maioria não é câncer nem exige tratamento imediato, e os sintomas dependem sobretudo da localização. Aprofunde em mioma uterino: sintomas, tipos e tratamento.
Adenomiose
Tecido semelhante ao endométrio infiltrado na parede muscular do útero. Responde aos estímulos hormonais do ciclo e pode causar cólicas intensas, sangramento aumentado e aumento do útero. Aprofunde em adenomiose: sintomas, diagnóstico e tratamento.
Adenomioma
Quando a adenomiose forma um nódulo delimitado, o achado se parece com um mioma na imagem — e é a principal fonte de confusão entre os dois diagnósticos. Diferenciá-los muda o planejamento do tratamento.
Endometriose
Tecido semelhante ao endométrio fora do útero. É uma condição distinta da adenomiose, embora as duas possam coexistir; quando há suspeita, a investigação por imagem é dirigida. Veja a página de endometriose.
Quando mais de uma condição aparece junta
Miomas, adenomiose e endometriose podem coexistir na mesma paciente. Nesse cenário, a investigação precisa separar o que cada uma está causando antes de definir o tratamento — inclusive porque a ordem das decisões muda quando há desejo de engravidar.
E quando as duas coexistem em quem deseja engravidar?
Quando mioma e adenomiose aparecem juntos em uma mulher que quer engravidar, não basta considerar cada diagnóstico isoladamente. A avaliação precisa identificar se os miomas alteram a cavidade uterina, qual é a extensão da adenomiose e como esses achados se relacionam com idade, reserva ovariana, tempo de tentativa e histórico reprodutivo.
A presença das duas condições não significa, automaticamente, necessidade de cirurgia nem de reprodução assistida. A estratégia é individualizada e considera qual alteração tem maior probabilidade de interferir na gestação e qual intervenção, se alguma, traz benefício naquele momento.
Miomas e adenomiose: quando buscar avaliação especializada
Quer entender a diferença entre adenomiose e endometriose e o que muda no tratamento? Assista ao vídeo do Prof. Dr. Alexander Kopelman sobre adenomiose.
Perguntas frequentes sobre miomas e adenomiose
Não. Miomas são nódulos benignos formados pelo músculo do útero. Adenomiose é a infiltração de tecido semelhante ao endométrio dentro da parede muscular uterina. Os sintomas podem ser parecidos — sangramento aumentado, cólicas e útero aumentado —, mas o diagnóstico por imagem e as opções de tratamento têm diferenças importantes.
Sim, e com frequência. Até cerca de metade das mulheres com adenomiose também tem miomas, e a adenomiose foi encontrada em 15% a 57% dos úteros retirados por miomas, conforme a série estudada (Schrager et al., American Family Physician, 2022). Quando coexistem, os sintomas tendem a ser mais intensos e o diagnóstico, mais difícil.
O padrão dos sintomas orienta, mas não fecha o diagnóstico sozinho. Uma pista útil é a dor cuja intensidade não corresponde ao tamanho dos miomas: em estudo caso-controle, mulheres com adenomiose associada relataram mais dor pélvica apesar de terem miomas menores (Taran et al., Human Reproduction, 2010). A distinção é feita com ultrassonografia transvaginal especializada e, quando resta dúvida, ressonância magnética da pelve.
A ultrassonografia transvaginal é o primeiro exame e, em mãos experientes, distingue a maior parte dos casos: os miomas aparecem como nódulos delimitados, enquanto a adenomiose altera a parede uterina segundo sinais definidos por consenso internacional (critérios MUSA). A ressonância magnética da pelve é o exame confirmatório quando o ultrassom não esclarece, quando as duas condições parecem coexistir ou quando é preciso planejar uma cirurgia. Vale saber que, na presença de miomas, o ultrassom convencional perde desempenho para detectar a adenomiose.
Não. O adenomioma é uma área de adenomiose que forma um nódulo delimitado dentro da parede do útero — por isso se parece com um mioma nas imagens. O mioma nasce do músculo uterino; o adenomioma é tecido semelhante ao endométrio infiltrado nesse músculo. A diferenciação importa porque muda o planejamento do tratamento, inclusive cirúrgico.
Sim. As três condições podem coexistir na mesma paciente. Quando isso acontece, mudam tanto a investigação quanto a conduta: é preciso diferenciar o que cada uma está causando antes de definir o tratamento, especialmente quando há dor pélvica crônica ou dificuldade para engravidar.
Não necessariamente mais grave. A combinação costuma cursar com mais dor e com diagnóstico mais difícil, o que pode mudar a interpretação do quadro e a conduta. Gravidade, aqui, se mede pelo impacto dos sintomas na vida da paciente e pelo que os achados significam para os seus objetivos — não pelo número de diagnósticos no laudo.
Depende de quais achados estão presentes e de como afetam o útero. Nos miomas, o que mais pesa é a localização, sobretudo quando deformam a cavidade uterina. Na adenomiose, avalia-se a extensão do comprometimento da parede. Ter as duas condições não significa, automaticamente, necessidade de cirurgia nem de reprodução assistida: a estratégia depende também de idade, reserva ovariana, tempo de tentativa e histórico reprodutivo.
Não necessariamente. Existe um espectro de condutas, do acompanhamento ao tratamento clínico e à cirurgia, e a escolha depende dos sintomas, dos achados de imagem, da idade e do desejo reprodutivo. O primeiro passo não é escolher a técnica, e sim definir qual condição explica os sintomas e o que precisa, de fato, ser tratado.
Nem sempre. Retirar o mioma tende a resolver o que era causado por ele, como o sangramento ligado à deformação da cavidade e os sintomas de compressão. Se parte da dor ou do sangramento vinha da adenomiose, esses sintomas podem persistir. É por isso que reconhecer as duas condições antes da intervenção muda a expectativa sobre o resultado e, às vezes, a própria escolha do procedimento.
Um plano claro antes de qualquer decisão
Quando miomas e adenomiose aparecem juntos — ou quando ainda há dúvida sobre qual condição explica os sintomas —, a avaliação integrada da história clínica e dos exames ajuda a definir com mais precisão o que realmente precisa ser tratado. O atendimento é presencial, na Clínica Evince, em São Paulo.
- Lonky NM, Chiu V, Portugal C, et al. Adenomyosis in women undergoing hysterectomy for abnormal uterine bleeding associated with uterine leiomyomas. PLOS ONE. 2023;18(12):e0294925. doi:10.1371/journal.pone.0294925.
- Schrager S, Yogendran L, Marquez CM, Sadowski EA. Adenomyosis: Diagnosis and Management. American Family Physician. 2022;105(1):33–38.
- Taran FA, Weaver AL, Coddington CC, Stewart EA. Characteristics indicating adenomyosis coexisting with leiomyomas: a case–control study. Human Reproduction. 2010;25(5):1177–1182. doi:10.1093/humrep/deq034.
- Harmsen MJ, Van den Bosch T, de Leeuw RA, et al. Consensus on revised definitions of Morphological Uterus Sonographic Assessment (MUSA) features of adenomyosis: results of modified Delphi procedure. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology. 2022. doi:10.1002/uog.24786.
- FIGO — Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia. Leiomyoma classification systems (classificação FIGO 0–8). Disponível em figofibroids.org.
- Brucker SY, Huebner M, Wallwiener M, et al. Clinical characteristics indicating adenomyosis coexisting with leiomyomas: a retrospective, questionnaire-based study. Fertility and Sterility. 2014;101(1):237–241.e1. doi:10.1016/j.fertnstert.2013.09.038.
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Relatos sobre a experiência de atendimento
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