Endometriose e fertilidade: como planejar a gravidez com avaliação individualizada

A endometriose pode interferir na fertilidade por diferentes mecanismos. A melhor estratégia — tentar naturalmente, operar, fazer FIV ou preservar óvulos — depende da idade, reserva ovariana, sintomas, localização da doença, histórico reprodutivo e exames do casal.

A endometriose não significa, necessariamente, impossibilidade de engravidar. Muitas mulheres conseguem gestação espontânea ou com auxílio de tratamentos. O ponto central é entender como a doença está afetando aquele caso específico — e não aplicar a mesma conduta para todas as pacientes.

Em algumas mulheres, a prioridade pode ser tentar gestação naturalmente por um período orientado. Em outras, pode ser necessário tratar a endometriose antes. Em casos com baixa reserva ovariana, idade reprodutiva avançada, endometriomas ou histórico de cirurgias ovarianas, pode ser mais adequado priorizar FIV ou preservação de fertilidade.

Resumo Clínico
A decisão em endometriose e fertilidade precisa responder a três perguntas principais:

1. A endometriose está reduzindo as chances de gravidez natural?
2. A cirurgia pode ajudar ou pode prejudicar a reserva ovariana?
3. A FIV deve ser feita antes, depois ou no lugar da cirurgia?

Não existe uma resposta única. A conduta depende da combinação entre sintomas, idade, reserva ovariana, presença de endometrioma, trompas, espermograma, histórico de tentativas, cirurgias anteriores e extensão da doença.

Quando estamos conversando sobre endometriose e fertilidade, existem muitas variáveis envolvidas na análise de cada paciente e de cada casal. Por isso, é necessário muito equilíbrio e bom senso para tomar a melhor decisão na escolha do tratamento para cada caso.

Prof. Dr. Alexander Kopelman
CRM-SP 103.944 · RQE 945031 · RQE 945032

Avaliação integrada

Quando endometriose e fertilidade devem ser avaliadas juntas

A avaliação integrada é indicada quando a paciente tem diagnóstico ou suspeita de endometriose e deseja engravidar agora ou no futuro. Isso vale tanto para pacientes com dor pélvica importante quanto para mulheres que descobrem a doença durante uma investigação de infertilidade.

A endometriose pode estar relacionada a:

Endometriomas ovarianos

Aderências pélvicas

Alterações tubárias

Redução da reserva ovariana

Falhas repetidas de tratamento reprodutivo em casos selecionados

Dificuldade para engravidar

Dor pélvica crônica

Cólicas menstruais intensas

Dor durante a relação sexual

Dor ao evacuar ou urinar no período menstrual

A investigação deve considerar o corpo como um sistema integrado: ovários, trompas, útero, pelve, qualidade dos óvulos, espermograma e histórico clínico.

Como afeta a fertilidade

Como a endometriose pode afetar a fertilidade

A endometriose pode comprometer a fertilidade por diferentes caminhos. Em algumas pacientes, o principal fator é anatômico: aderências, distorção da pelve ou alteração das trompas podem dificultar o encontro entre óvulo e espermatozoide.

Em outras, o impacto pode estar relacionado ao ambiente inflamatório da pelve, à qualidade dos óvulos, à reserva ovariana ou à presença de endometriomas. Por isso, duas pacientes com o mesmo diagnóstico de “endometriose” podem precisar de estratégias completamente diferentes.

Mecanismo 1

Diminuição da receptividade endometrial

A endometriose gera um processo inflamatório na pelve, que provoca uma grande produção do hormônio prostaglandina. Esse hormônio acaba interferindo no funcionamento de genes fundamentais para o endométrio se tornar receptivo para o embrião e, por isso, a implantação fica mais difícil.

Mecanismo 2

Aderências e distorção anatômica

A doença pode formar aderências entre ovários, trompas, útero, intestino e peritônio. Isso pode prejudicar a mobilidade das trompas e dificultar a fecundação natural.

Mecanismo 3

Comprometimento das trompas

Quando há endometriose profunda ou aderências importantes, as trompas podem perder função mesmo quando parecem pérvias em alguns exames.

Mecanismo 4

Endometrioma e reserva ovariana

O endometrioma é o cisto de endometriose no ovário. Ele pode comprometer progressivamente a reserva ovariana e sua cirurgia precisa ser cuidadosamente indicada.

Mecanismo 5

Qualidade dos óvulos e resposta à estimulação

Em algumas pacientes, a endometriose pode interferir na resposta ovariana durante tratamentos de reprodução assistida. Por isso, o protocolo de FIV precisa ser individualizado.

Gravidez natural

É possível engravidar naturalmente com endometriose?

Sim. Muitas mulheres com endometriose conseguem engravidar naturalmente. A possibilidade depende de fatores como idade, tempo de infertilidade, reserva ovariana, presença de endometrioma, grau de acometimento pélvico, condição das trompas, espermograma e intensidade dos sintomas.

Em pacientes jovens, com boa reserva ovariana, trompas funcionais, espermograma normal e doença sem distorção anatômica importante, pode ser razoável tentar gestação espontânea por um período orientado.

Por outro lado, quando há idade reprodutiva mais avançada, baixa reserva ovariana, endometrioma bilateral, infertilidade prolongada ou fator masculino associado, insistir em tentativas naturais por muito tempo pode reduzir oportunidades reprodutivas.

O objetivo da avaliação é evitar dois extremos:

Operar sem necessidade ou postergar uma estratégia reprodutiva quando o tempo é um fator relevante.

Diagnóstico antes da decisão

Diagnóstico antes da decisão reprodutiva

Antes de decidir entre tentativa natural, cirurgia, FIV ou preservação de fertilidade, é importante mapear o quadro com precisão.

A avaliação costuma considerar:

Histórico de dor pélvica, cólica, dor na relação e sintomas intestinais ou urinários

Tempo de tentativa para engravidar

Idade da paciente

Cirurgias prévias, especialmente ovarianas

Dosagem do hormônio antimülleriano

Contagem de folículos antrais por ultrassonografia

Avaliação de endometriomas

Ultrassonografia transvaginal especializada com preparo intestinal, quando indicada

Ressonância magnética com protocolo para endometriose, quando necessária

Avaliação das trompas

Espermograma

Histórico de FIV, perdas gestacionais ou falhas de implantação

A decisão deve nascer dessa análise conjunta, e não apenas do laudo de um exame isolado.

Caminhos possíveis

Os caminhos possíveis

A conduta pode seguir diferentes estratégias. Em alguns casos, uma delas é suficiente. Em outros, pode haver uma sequência combinada.

01

Acompanhamento e tentativa natural orientada

Pode ser considerado quando a paciente tem boa reserva ovariana, idade favorável, sintomas controlados, trompas funcionais e ausência de distorção anatômica importante. Essa estratégia deve ter prazo definido.

02

Cirurgia antes da gestação ou antes da FIV

A cirurgia pode ser considerada quando há dor importante, endometriose profunda com acometimento intestinal ou urinário, distorção anatômica relevante, suspeita de comprometimento tubário ou necessidade de tratar a doença para melhorar o ambiente pélvico.

03

FIV como estratégia principal

A FIV pode ser priorizada quando há idade reprodutiva avançada, baixa reserva ovariana, infertilidade prolongada, fator masculino associado, histórico de cirurgia ovariana ou quando a cirurgia não tende a melhorar de forma relevante as chances reprodutivas naquele momento.

04

Preservação de fertilidade

O congelamento de óvulos  ou embriões pode ser indicado quando existe risco de perda de reserva ovariana, principalmente em pacientes com endometriomas, baixa reserva, doença bilateral ou indicação de cirurgia ovariana.

05

Estratégia combinada

Em casos selecionados, o melhor plano pode envolver mais de uma etapa: preservar óvulos ou embriões, tratar cirurgicamente a endometriose e depois programar transferência embrionária ou tentativa de gestação.

Endometrioma e reserva ovariana

Endometrioma e reserva ovariana: uma decisão delicada

O endometrioma é uma das situações mais importantes quando se fala em endometriose e fertilidade. Ele pode prejudicar a reserva ovariana, mas sua cirurgia também pode reduzir essa reserva quando não é bem indicada ou quando já há reserva comprometida.

A pergunta correta não é apenas “devo retirar o cisto?

A pergunta mais importante é: qual conduta preserva melhor a fertilidade desta paciente neste momento?

A resposta depende de:

Idade

Tamanho do endometrioma

Unilateralidade ou bilateralidade

Reserva ovariana atual

Presença de dor

Suspeita de malignidade, quando aplicável

Cirurgias ovarianas prévias

Desejo de engravidar agora ou no futuro

Necessidade de FIV

Risco de dificultar punção ovariana

Experiência da equipe cirúrgica

Em algumas pacientes, a cirurgia é indicada. Em outras, pode ser mais prudente fazer FIV, congelar óvulos ou acompanhar o endometrioma antes de qualquer intervenção.

Quando considerar cirurgia

Quando a cirurgia pode ser considerada antes da gravidez ou da FIV

A cirurgia pode ter papel importante quando a endometriose compromete qualidade de vida, anatomia pélvica ou órgãos como intestino, bexiga e ureter.

Ela pode ser considerada quando há:

Dor pélvica importante e refratária

Endometriose profunda com acometimento intestinal

Endometriose vesical ou ureteral

Distorção anatômica da pelve

Aderências importantes

Suspeita de comprometimento tubário

Endometrioma com indicação cirúrgica bem definida

Falha de tratamentos anteriores em contexto selecionado

Necessidade de restaurar a anatomia pélvica antes de tentar gestação

A cirurgia, quando indicada, deve ser planejada com foco em ressecção adequada da doença e preservação das estruturas reprodutivas.

Quando priorizar o congelamento de óvulos

Quando o congelamento de óvulos ou embriões é recomendado

O congelamento de óvulos pode ser considerado em mulheres com endometriose que ainda não desejam engravidar, mas apresentam risco de redução da fertilidade ao longo do tempo.

Essa possibilidade é especialmente relevante em casos de:

Endometrioma

Endometrioma bilateral

Baixa reserva ovariana

Cirurgia ovariana programada

Histórico familiar ou pessoal de reserva reduzida

Desejo de postergar a gravidez

Endometriose com evolução progressiva

O procedimento não garante gravidez futura, mas pode ampliar possibilidades reprodutivas em pacientes bem selecionadas.

Infertilidade sem causa aparente e endometriose

Algumas mulheres recebem o diagnóstico de infertilidade sem causa aparente após exames iniciais normais.
Nesses casos, a endometriose pode não ter sido identificada na investigação convencional, especialmente
quando as lesões são mínimas, leves ou não formam endometriomas visíveis. A endometriose pode estar
presente em 25% a 50% das mulheres com infertilidade, mesmo na ausência de sintomas.

A suspeita deve ser maior quando há:

Cólica menstrual intensa

Dor na relação

Dor pélvica fora do ciclo

Sintomas intestinais ou urinários cíclicos

Histórico familiar de endometriose

Falhas repetidas de tratamento

Exames de rotina normais, mas persistência da infertilidade

Nesses casos, a reinvestigação com olhar especializado pode mudar a estratégia.

Como o Prof. Dr. Alexander Kopelman avalia esses casos

A avaliação de endometriose e fertilidade exige integração entre duas áreas: cirurgia ginecológica avançada e reprodução assistida.

O Prof. Dr. Alexander Kopelman atua com dupla certificação em Endoscopia Ginecológica e Reprodução Assistida, o que permite analisar o caso considerando simultaneamente a extensão da doença, o impacto sobre a fertilidade, a possibilidade de cirurgia minimamente invasiva, o risco para a reserva ovariana e o momento adequado para FIV ou preservação de fertilidade.

A consulta é voltada a construir um plano individualizado, com base em:

Sintomas

Exames de imagem

Reserva ovariana

Histórico reprodutivo

Idade

Desejo de gravidez

Cirurgias prévias

Riscos e benefícios de cada caminho

Necessidade de equipe multidisciplinar em casos complexos

A decisão final deve ser compartilhada com a paciente, com explicação clara das alternativas, limites e próximos passos.

Para quem esta avaliação é indicada

Esta página é especialmente relevante para mulheres que:

Têm endometriose e desejam engravidar

Tentam engravidar há meses ou anos sem sucesso

Receberam indicação de cirurgia e querem saber se devem operar antes da FIV

Têm endometrioma e preocupação com reserva ovariana

Já fizeram cirurgia de endometriose e desejam planejar gravidez

Estão considerando congelamento de óvulos

Têm baixa reserva ovariana

Tiveram falha de FIV e suspeitam de endometriose

Receberam diagnóstico de infertilidade sem causa aparente

Têm dor pélvica associada à infertilidade

Procuram segunda opinião antes de decidir entre cirurgia e reprodução assistida

Decidir entre cirurgia, FIV ou preservação de fertilidade exige avaliação individualizada.

Agende uma avaliação especializada para revisar exames, histórico reprodutivo, reserva ovariana e extensão da endometriose.

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Perguntas frequentes

FAQ sobre endometriose e fertilidade

Não. Muitas mulheres com endometriose conseguem engravidar naturalmente. A doença pode dificultar a fertilidade em alguns casos, mas o impacto varia conforme a idade, reserva ovariana, presença de endometrioma, aderências, condição das trompas, espermograma e extensão da doença.

Sim. A gravidez natural pode ser possível, especialmente em mulheres jovens, com boa reserva ovariana, trompas funcionais, espermograma normal e ausência de distorção anatômica importante. A decisão de tentar naturalmente deve ter prazo e acompanhamento definidos.

A endometriose pode atrapalhar por inflamação pélvica, aderências, alteração das trompas, distorção anatômica, comprometimento da reserva ovariana e presença de endometriomas. Em algumas pacientes, também pode afetar resposta à estimulação ovariana em tratamentos de reprodução assistida.

Depende. A cirurgia pode ser indicada quando há dor importante, endometriose profunda com comprometimento de órgãos (como intestino ou ureter), hidrossalpinge ou distorção anatômica relevante. Em outros casos, tentar gravidez espontânea, priorizar a FIV ou preservar a fertilidade pode ser mais adequado. A decisão é individualizada e considera idade, reserva ovariana, sintomas e objetivos da paciente.

A FIV pode ser indicada quando há baixa reserva ovariana, idade reprodutiva mais avançada, fator masculino, trompas comprometidas, infertilidade prolongada, histórico de cirurgia ovariana ou quando a cirurgia não oferece benefício reprodutivo claro naquele momento.

Não necessariamente. A decisão depende do tamanho do endometrioma, reserva ovariana, sintomas, acesso aos folículos para punção, cirurgias anteriores e risco de perda adicional de reserva. Em algumas pacientes, operar antes da FIV pode prejudicar mais do que ajudar.

Sim, pode. Nos últimos anos isso foi tema em muitos congressos internacionais, o que levou ao aprimoramento da técnica cirúrgica para que o procedimento cause o menor impacto possível sobre o tecido ovariano saudável.

O congelamento de óvulos pode ser considerado em pacientes com endometriose que ainda não desejam engravidar, especialmente quando há endometrioma, baixa reserva ovariana, doença bilateral ou indicação de cirurgia ovariana que possa reduzir a reserva.

Sim. Em algumas mulheres, a endometriose pode estar presente mesmo sem dor, cólicas fortes ou alterações evidentes nos exames iniciais. Por isso, quando a gravidez não acontece e não há uma causa aparente, é importante olhar com mais atenção. Estudos mostram que, nesse grupo, a endometriose pode estar presente em uma parcela significativa dos casos, chegando a cerca de 50% em algumas séries.

Não existe um melhor tratamento universal. O melhor caminho pode ser tentativa natural orientada, cirurgia, FIV, congelamento de óvulos ou estratégia combinada. A escolha depende de avaliação individualizada.

  1. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009.
  2. Practice Committee of the ASRM. Endometriosis and infertility: a committee opinion. Fertil Steril. 2012. (fonte da estimativa de 25%–50%)
  3. Zondervan KT, Becker CM, Missmer SA. Endometriosis. N Engl J Med. 2020;382(13):1244-1256.
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