A colostomia não costuma fazer parte da cirurgia inicial para endometriose intestinal. Quando ocorre, geralmente está relacionada a complicações como fístula ou vazamento intestinal, ou a situações de maior risco cirúrgico. O risco depende da localização da lesão, da técnica utilizada e de fatores individuais.
Por
Dr. Alexander Kopelman
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A colostomia é um dos maiores medos de quem recebe o diagnóstico de endometriose intestinal, mas ela não costuma fazer parte da cirurgia inicial e, quando indicada, geralmente tem finalidade temporária.
Na endometriose intestinal e colostomia, a bolsa não é rotina na cirurgia. Em geral, o objetivo do tratamento cirúrgico é tratar a lesão no intestino e preservar a função intestinal sempre que isso for possível e seguro. Quando uma colostomia é necessária, costuma estar relacionada a situações específicas de risco ou a complicações pós-operatórias, e a conduta depende sempre de avaliação individualizada.
O medo da colostomia é compreensível. Muitas mulheres recebem um laudo com endometriose no reto, no sigmoide ou em outra alça intestinal e imaginam que a cirurgia obrigatoriamente levará ao uso definitivo de uma bolsa. Na prática, essa não é a regra.
O mais importante é diferenciar a cirurgia planejada para tratar a endometriose intestinal de uma colostomia feita para proteger o intestino em situações específicas. Essa distinção ajuda a reduzir medo desnecessário e permite uma conversa mais clara sobre riscos reais, benefícios e alternativas. Vale lembrar que a endometriose intestinal costuma fazer parte do espectro da endometriose profunda, especialmente quando há lesões que atingem estruturas pélvicas além do peritônio superficial.
O que é endometriose intestinal?
A endometriose intestinal ocorre quando focos de endometriose atingem a parede do intestino. As regiões mais frequentemente envolvidas são o reto e o sigmoide, que ficam na parte final do intestino grosso.
Em muitos casos, a doença cresce a partir da parte externa da parede intestinal, próxima à pelve, e pode causar sintomas como dor para evacuar, dor pélvica, cólica intensa, dor na relação sexual e piora dos sintomas no período menstrual.
Nem toda endometriose intestinal precisa de cirurgia. A decisão depende da intensidade dos sintomas, da localização da lesão, do grau de comprometimento intestinal, da presença de outras lesões de endometriose profunda, do desejo reprodutivo e da evolução nos exames de imagem.
A cirurgia de endometriose intestinal sempre precisa de colostomia?
Não. A colostomia não costuma fazer parte da cirurgia inicial para endometriose intestinal. Quando a cirurgia é indicada, o objetivo pode ser retirar ou tratar a área afetada pela endometriose, preservando o intestino sempre que possível. Dependendo do caso, podem ser consideradas diferentes abordagens, como shaving, excisão discoide ou ressecção segmentar.
A escolha da técnica depende de fatores como tamanho da lesão, profundidade de infiltração, número de nódulos, distância da lesão em relação à borda anal e experiência da equipe cirúrgica. Essa escolha não deve ser feita apenas pelo nome da técnica, mas pelo conjunto do quadro clínico e dos exames.
Por que algumas pacientes podem precisar de colostomia?
A colostomia pode ser necessária em situações específicas, principalmente quando há risco ou ocorrência de uma complicação chamada fístula ou vazamento intestinal.
Quando uma parte do intestino é aberta, suturada ou reconstruída, forma-se uma área de cicatrização. Essa área pode ser uma linha de anastomose, quando dois segmentos intestinais são unidos novamente. Em alguns casos, pode surgir uma pequena abertura nessa região, permitindo o extravasamento de conteúdo intestinal.
Nessa situação, pode ser necessário desviar temporariamente o trânsito intestinal para permitir que a área cicatrize com mais segurança. É nesse contexto que uma colostomia, uma ileostomia ou outro estoma de proteção pode ser indicado. Isso não significa que a bolsa será definitiva: em muitos casos, quando é necessária, seu objetivo é temporário, protegendo o intestino durante a cicatrização e permitindo fechamento posterior em nova cirurgia.
A altura da lesão intestinal influencia o risco?
Sim. A localização da lesão intestinal é um dos fatores mais importantes para estimar o risco de complicações.
Lesões mais baixas, próximas da borda anal, tendem a ser mais delicadas do ponto de vista cirúrgico, porque anastomoses muito baixas têm menor margem de segurança e podem estar associadas a maior risco de fístula ou necessidade de estoma de proteção. Já lesões mais altas, localizadas mais acima no reto ou no sigmoide, costumam ter risco menor, embora a avaliação sempre dependa do caso.
Por isso, exames de imagem bem feitos costumam informar a distância da lesão em relação à borda anal. Essa informação ajuda a equipe médica a planejar a cirurgia e a orientar a paciente sobre riscos de forma mais realista.
A técnica cirúrgica influencia o risco?
Sim. A técnica usada para tratar a endometriose intestinal pode influenciar o risco de fístula, vazamento, estenose, recorrência e necessidade de estoma temporário. Quando a cirurgia é indicada, a cirurgia videolaparoscópica pode ser considerada em casos selecionados, sempre conforme a extensão da doença, o planejamento da equipe e a segurança da paciente.
Shaving
O shaving é uma técnica mais conservadora, em que a lesão é removida da superfície intestinal sem abrir o lúmen do intestino. Quando é tecnicamente possível, pode estar associada a menor risco de algumas complicações intestinais.
Excisão discoide
A excisão discoide remove uma área localizada da parede intestinal, geralmente em formato de disco. Pode ser útil em lesões selecionadas, mas envolve abertura e fechamento da parede intestinal.
Ressecção segmentar
A ressecção segmentar envolve a retirada de um segmento do intestino e reconstrução com anastomose. Pode ser necessária em casos mais extensos, múltiplos ou com maior comprometimento da parede intestinal.
Essas opções não funcionam como uma escala simples de melhor ou pior. A técnica mais adequada depende da anatomia da lesão, dos sintomas, do risco cirúrgico, da fertilidade, das outras áreas comprometidas pela endometriose e da experiência da equipe.
Colostomia temporária é o mesmo que colostomia definitiva?
Não. Quando a colostomia é usada no contexto da cirurgia de endometriose intestinal, ela costuma ter finalidade temporária. Sua função é desviar o trânsito intestinal para proteger uma área de cicatrização; depois que a fístula, o vazamento ou a área de maior risco cicatriza, pode ser programado o fechamento do estoma.
O tempo até o fechamento varia. Em alguns casos, é citado um período aproximado de dois meses, mas séries cirúrgicas mostram que esse intervalo pode ser maior, especialmente quando há fístula retovaginal ou necessidade de múltiplos procedimentos de reparo. Por isso, a paciente deve receber orientação individualizada, com explicação clara sobre o motivo do estoma, a expectativa de reversão e os fatores que podem modificar esse prazo.
O que deve ser conversado antes da cirurgia?
Antes de uma cirurgia para endometriose intestinal, alguns pontos merecem ser discutidos de forma objetiva:
qual é a localização da lesão no intestino;
qual é a distância da lesão em relação à borda anal;
se há uma ou várias lesões intestinais;
se existe comprometimento de outros órgãos, como ureter, bexiga ou vagina;
qual técnica cirúrgica parece mais provável;
qual é o risco estimado de fístula, vazamento ou estoma temporário;
se pode haver necessidade de cirurgião colorretal na equipe;
como será o acompanhamento pós-operatório;
como ficam dor, qualidade de vida e planejamento reprodutivo após a cirurgia.
Em mulheres que desejam engravidar no futuro, a fertilização in vitro pode entrar como uma possibilidade reprodutiva em cenários específicos, sempre de acordo com idade, reserva ovariana, exames do casal e extensão da endometriose. Esses pontos ajudam a transformar o medo em informação: a decisão não deve se basear apenas na presença de endometriose no intestino, mas no impacto real da doença e no equilíbrio entre benefício esperado e risco cirúrgico.
Quando procurar avaliação especializada
A avaliação especializada deve ser considerada quando há sintomas importantes, laudo sugestivo de endometriose profunda intestinal ou dúvida sobre indicação cirúrgica:
dor intensa para evacuar, especialmente no período menstrual;
dor pélvica persistente ou progressiva;
dor profunda na relação sexual;
alteração importante do hábito intestinal associada ao ciclo menstrual;
laudo mostrando lesão em reto, sigmoide ou outra alça intestinal;
suspeita de lesão baixa próxima da borda anal;
necessidade de decidir entre tratamento clínico, cirurgia, FIV ou preservação da fertilidade;
medo de colostomia ou dúvidas sobre riscos da cirurgia.
Esses sinais não significam automaticamente que a cirurgia será necessária. Eles indicam que a paciente deve ser avaliada de forma individualizada, com revisão dos sintomas, exame físico, exames de imagem e objetivos pessoais. Quando há dúvida entre acompanhamento, tratamento clínico, cirurgia ou planejamento reprodutivo, a avaliação individualizada ajuda a organizar riscos, sintomas, exames e objetivos da paciente.
Perguntas frequentes
Quem tem endometriose intestinal vai precisar de colostomia?
Na maioria dos casos, não. A colostomia não costuma fazer parte da programação inicial da cirurgia para endometriose intestinal. Quando ocorre, geralmente está relacionada a situações específicas de risco ou a complicações como fístula ou vazamento intestinal.
A colostomia na endometriose intestinal costuma ser definitiva?
Geralmente não. Quando é indicada nesse contexto, costuma ter finalidade temporária, para proteger o intestino durante a cicatrização. O fechamento depende da evolução pós-operatória e da confirmação de cicatrização segura.
O que aumenta o risco de precisar de colostomia?
Alguns fatores podem aumentar o risco, como lesões muito baixas no reto, anastomoses próximas da borda anal, necessidade de abertura do intestino, ressecção segmentar, lesões complexas e associação com outros procedimentos pélvicos. A avaliação precisa depende dos exames e do planejamento cirúrgico.
Shaving é sempre melhor que ressecção segmentar?
Não necessariamente. O shaving pode ter menor risco de algumas complicações quando é tecnicamente viável, mas nem toda lesão pode ser tratada dessa forma. Em casos mais extensos, múltiplos ou com maior comprometimento da parede intestinal, outras técnicas podem ser consideradas.
Quanto tempo uma colostomia temporária pode permanecer?
O tempo varia conforme a causa da colostomia, a cicatrização e a presença de complicações. Em alguns casos é citado cerca de dois meses, mas estudos cirúrgicos mostram que o período pode ser maior, especialmente quando há fístula retovaginal.
Endometriose intestinal sempre precisa de cirurgia?
Não. A decisão depende dos sintomas, da localização da lesão, da evolução nos exames, do risco para órgãos próximos e dos objetivos da paciente. Algumas mulheres podem ser acompanhadas ou tratadas clinicamente; outras podem precisar de cirurgia.
Para entender melhor quando a colostomia pode ser necessária no tratamento da endometriose intestinal, assista à explicação do Prof. Dr. Alexander Kopelman:
Glossário: termos importantes sobre endometriose intestinal e colostomia
Endometriose intestinal
Forma de endometriose em que as lesões atingem a parede do intestino, especialmente reto e sigmoide.
Colostomia
Abertura cirúrgica que desvia o intestino grosso para uma bolsa coletora. No contexto da endometriose intestinal, quando necessária, costuma ter finalidade temporária.
Ileostomia
Abertura cirúrgica que desvia o intestino delgado para uma bolsa. Em alguns casos, é descrita como estoma de proteção.
Fístula
Comunicação anormal que pode surgir entre o intestino e outra região, como a vagina ou a cavidade pélvica, geralmente por falha de cicatrização.
Anastomose
União cirúrgica entre duas partes do intestino após retirada de uma área comprometida.
Shaving
Técnica cirúrgica conservadora em que a lesão é removida da superfície intestinal sem abertura do lúmen.
Excisão discoide
Técnica em que uma área localizada da parede intestinal é retirada em formato de disco.
Ressecção segmentar
Técnica em que um segmento do intestino é retirado e as extremidades são reconectadas.
O Prof. Dr. Alexander Kopelman é Médico Ginecologista — CRM-SP 103.944 — com RQE 945031 em Endoscopia Ginecológica e RQE 945032 em Reprodução Assistida. É MD, MSc e PhD pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Foi Professor Adjunto do Departamento de Ginecologia da UNIFESP/EPM entre 2019 e 2024 e atualmente atua como Colaborador Científico e Professor Voluntário, com atuação no Ambulatório de Endometriose. Tem atuação em endometriose profunda, dor pélvica crônica, endometrioma, adenomiose, infertilidade, reprodução humana, preservação da fertilidade, cirurgia ginecológica minimamente invasiva e cirurgia robótica. É Console Surgeon certificado em Cirurgia Robótica Da Vinci Xi pelo IRCAD América Latina. Atende em São Paulo, na Clínica Evince, e realiza procedimentos cirúrgicos nos hospitais Israelita Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.
Conteúdo revisado clinicamente pelo Prof. Dr. Alexander Kopelman em 24/06/2026.
Aviso médico: este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica presencial ou avaliação individualizada. Cada caso deve ser analisado por profissional habilitado.
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