Cirurgia para endometrioma de ovário: como é feita
O artigo explica como a cirurgia de endometrioma é planejada e realizada, desde os exames pré-operatórios até a remoção da cápsula e o controle cuidadoso do sangramento. Também aborda preservação da reserva ovariana, congelamento de óvulos em casos selecionados, risco de perder o ovário, suspeita de tumor e prevenção de recidiva.
Por
Dr. Alexander Kopelman
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A cirurgia para endometrioma de ovário exige planejamento cuidadoso, mapeamento da endometriose associada e técnica delicada para reduzir o impacto sobre o tecido ovariano saudável.
A cirurgia para endometrioma de ovário é feita, em geral, por via minimamente invasiva, com esvaziamento do cisto, retirada cuidadosa da cápsula e controle delicado do sangramento. O objetivo é tratar a doença, aliviar sintomas quando indicado e reduzir o impacto sobre a função ovariana, especialmente em pacientes com desejo de gravidez.
Nem toda mulher com endometrioma precisa operar. A decisão depende dos sintomas, do tamanho e das características do cisto, da presença de endometriose profunda associada, da reserva ovariana, da idade e dos planos reprodutivos.
Este artigo aprofunda uma dúvida específica: como a cirurgia para endometrioma de ovário é planejada e realizada, e quais cuidados podem ajudar a reduzir o impacto sobre o tecido ovariano saudável.
Resumo do que você vai encontrar neste artigo
Como é feito o planejamento antes da cirurgia.
Quais exames ajudam a mapear endometrioma e endometriose profunda.
Por que avaliar AMH e reserva ovariana antes do procedimento.
Como é feita a retirada da cápsula do endometrioma.
Quais cuidados técnicos podem reduzir o impacto sobre o ovário.
Quando discutir congelamento de óvulos ou embriões.
Como pensar em prevenção de recidiva depois da cirurgia.
O que é o endometrioma de ovário?
O endometrioma é um cisto ovariano associado à endometriose. Ele costuma conter um líquido espesso e escurecido, frequentemente descrito como semelhante a chocolate, e pode estar aderido ao tecido ovariano e a estruturas próximas da pelve.
Em algumas pacientes, o endometrioma está associado a dor pélvica, cólicas intensas, dor na relação sexual, infertilidade ou alterações identificadas nos exames de imagem. Em outras, pode ser descoberto durante investigação de fertilidade ou em exames de rotina.
A principal preocupação é que o endometrioma pode afetar o ovário, mas a cirurgia para removê-lo também pode impactar a reserva ovariana. Por isso, a decisão não deve ser automática.
Por que o planejamento antes da cirurgia é tão importante?
O planejamento é uma das etapas mais importantes da cirurgia para endometrioma de ovário. Isso acontece porque o endometrioma pode vir acompanhado de endometriose profunda em outras regiões da pelve, como atrás do útero, nos ligamentos, no intestino, na bexiga ou próximo aos ureteres.
Quando essas lesões não são identificadas antes da cirurgia, aumenta o risco de planejamento incompleto ou de necessidade de decisões adicionais no centro cirúrgico. Por isso, o objetivo do planejamento é entender não apenas o cisto ovariano, mas o mapa completo da doença.
Em geral, a avaliação pode incluir:
História clínica detalhada: dor, infertilidade, sintomas intestinais, urinários e cirurgias anteriores.
Ultrassom transvaginal especializado: especialmente quando há suspeita de endometriose profunda.
Ressonância magnética com protocolo para endometriose: útil para mapear lesões profundas e anatomia pélvica.
AMH e contagem de folículos antrais: ajudam a estimar a reserva ovariana antes da decisão.
Avaliação reprodutiva: idade, desejo de gravidez, histórico de FIV e possibilidade de preservar fertilidade.
Esses exames ajudam a organizar a estratégia, mas não substituem a avaliação médica individualizada. A decisão final depende da combinação entre sintomas, imagem, função ovariana e objetivos da paciente.
Endometrioma pode estar associado à endometriose profunda?
Sim. O endometrioma de ovário frequentemente aparece junto com lesões de endometriose profunda na pelve. Por isso, antes de uma cirurgia, é importante investigar se existem lesões associadas em regiões como intestino, ureter, bexiga, ligamentos uterossacros e região retrocervical.
Essa investigação muda o planejamento. Se houver suspeita de acometimento intestinal ou ureteral, por exemplo, pode ser necessário programar materiais específicos, equipe cirúrgica complementar e um hospital adequado à complexidade do caso.
O objetivo não é apenas retirar o cisto do ovário. É tratar o que realmente precisa ser tratado, evitando uma cirurgia parcial quando a doença é mais extensa.
Por que avaliar AMH antes da cirurgia?
O AMH, ou hormônio antimülleriano, é um exame usado para estimar a reserva ovariana. Ele não define sozinho se a paciente deve operar, fazer FIV, congelar óvulos ou acompanhar o endometrioma, mas ajuda a entender o risco reprodutivo.
Essa avaliação é especialmente importante em algumas situações:
endometrioma nos dois ovários;
idade próxima ou acima dos 35 anos;
baixa reserva ovariana conhecida;
cirurgia ovariana prévia;
desejo de engravidar no futuro;
dúvida entre cirurgia, FIV ou congelamento de óvulos.
Quando há preocupação com fertilidade, a cirurgia deve ser integrada ao planejamento reprodutivo. Esse raciocínio é aprofundado na página sobre endometriose e fertilidade.
A cirurgia pode reduzir a reserva ovariana?
Sim, pode. A retirada do endometrioma pode reduzir a reserva ovariana em algumas pacientes, especialmente quando há endometrioma bilateral, cistos maiores, cirurgias ovarianas anteriores ou reserva já comprometida antes do procedimento.
Esse risco existe porque a cápsula do endometrioma fica aderida ao tecido ovariano. Durante a separação, pode haver perda de parte do tecido saudável ou impacto na vascularização local. Além disso, o controle do sangramento precisa ser feito com cuidado para evitar dano térmico excessivo.
Isso não significa que a cirurgia deva ser evitada em todos os casos. Significa que ela precisa ter indicação clara, técnica cuidadosa e planejamento reprodutivo quando a fertilidade é uma prioridade.
Quando discutir congelamento de óvulos antes da cirurgia?
O congelamento de óvulos ou embriões pode ser considerado antes da cirurgia em pacientes com maior risco de perda de reserva ovariana ou que desejam preservar possibilidades reprodutivas futuras.
Essa discussão pode ser especialmente relevante quando há:
Endometrioma bilateral: quando os dois ovários estão envolvidos.
AMH baixo: quando a reserva ovariana já parece reduzida.
Idade reprodutiva mais avançada: quando o tempo passa a ter peso maior na decisão.
Cirurgia ovariana prévia: quando o ovário já passou por intervenção anterior.
Desejo de adiar a gravidez: quando a paciente não pretende engravidar imediatamente.
Preservar fertilidade não garante gravidez futura, mas pode ampliar possibilidades em pacientes bem selecionadas. A decisão deve considerar idade, exames, urgência cirúrgica, resposta ovariana esperada e preferências da paciente.
Como é feita a cirurgia para endometrioma de ovário?
A cirurgia costuma ser realizada por técnica minimamente invasiva, como videolaparoscopia ou cirurgia robótica em casos selecionados. A escolha da via depende da complexidade do caso, da extensão da doença, da anatomia pélvica e do planejamento cirúrgico.
1. Avaliação da pelve e liberação de aderências
No início da cirurgia, a equipe avalia a pelve, identifica aderências e observa a relação do ovário com o útero, intestino, ureter e demais estruturas. O endometrioma muitas vezes está aderido à parte posterior do útero ou à região próxima aos ureteres.
2. Esvaziamento do conteúdo do cisto
O endometrioma é esvaziado com aspiração cuidadosa do conteúdo líquido. Esse conteúdo pode sair espontaneamente durante a mobilização do ovário ou ser aspirado com instrumento próprio da cirurgia.
3. Identificação da cápsula do endometrioma
Depois do esvaziamento, permanece a cápsula do cisto, que pode estar mais ou menos aderida ao tecido ovariano. Essa cápsula precisa ser identificada para que a remoção seja feita no plano mais adequado possível.
4. Retirada cuidadosa da cápsula
A cápsula é separada progressivamente do tecido ovariano. Essa etapa exige delicadeza, porque parte do tecido saudável do ovário pode estar próximo da parede do cisto. O objetivo é tratar o endometrioma reduzindo ao máximo a remoção desnecessária de tecido ovariano.
5. Controle do sangramento
Após a retirada da cápsula, pode haver sangramento no leito onde o endometrioma estava implantado. O controle deve ser cuidadoso, com o menor uso possível de energia térmica quando isso for seguro, porque cauterização excessiva pode afetar a vascularização ovariana.
Na prática, reduzir o impacto sobre o ovário não depende apenas de escolher uma técnica. Depende de buscar um plano adequado de dissecção, controlar sangramento com o menor dano possível, evitar retirada desnecessária de tecido saudável e considerar o histórico reprodutivo antes da cirurgia.
Retirar a cápsula é sempre melhor do que cauterizar?
Não existe uma resposta única para todas as pacientes. A retirada da cápsula, chamada cistectomia, pode reduzir o risco de recidiva do endometrioma quando comparada a drenagem e ablação em muitos estudos. Por outro lado, também pode ter maior impacto sobre a reserva ovariana.
Técnicas ablativas, como laser, plasma energy ou outras formas de ablação, podem preservar melhor alguns marcadores de função ovariana em estudos selecionados, mas ainda existem dúvidas sobre recidiva, disponibilidade técnica e seleção adequada das pacientes.
Por isso, a escolha da técnica deve equilibrar controle da doença, risco de recidiva, reserva ovariana, desejo reprodutivo e características do endometrioma.
Existe risco de perder o ovário?
Em endometriomas típicos e bem avaliados nos exames, o objetivo da cirurgia é preservar o ovário. A retirada do ovário não faz parte do planejamento habitual de uma cirurgia de endometrioma em mulheres em idade reprodutiva com desejo de preservar fertilidade.
No entanto, é importante evitar afirmações absolutas. Em situações específicas, como suspeita de tumor, anatomia muito complexa, comprometimento importante do tecido ovariano ou risco oncológico, o planejamento pode mudar.
Por isso, exames de imagem de boa qualidade são fundamentais antes da cirurgia. Eles ajudam a diferenciar um endometrioma típico de uma massa ovariana com características suspeitas.
Quando suspeitar que não é apenas um endometrioma?
Alguns achados nos exames de imagem podem exigir avaliação mais cuidadosa, principalmente quando há dúvida entre endometrioma e outra lesão ovariana.
Componentes sólidos dentro do cisto.
Septações complexas ou múltiplas.
Vascularização atípica.
Crescimento rápido.
Cisto muito volumoso.
Idade próxima à menopausa.
Marcadores sanguíneos alterados em contexto suspeito.
Esses achados não significam automaticamente câncer, mas indicam necessidade de avaliação especializada e planejamento cirúrgico adequado.
Como reduzir o risco de recidiva?
A recidiva do endometrioma pode ocorrer após qualquer técnica cirúrgica. A retirada adequada da cápsula pode reduzir esse risco em comparação com técnicas mais incompletas, mas não elimina a possibilidade de retorno da doença.
Quando a paciente não deseja engravidar imediatamente, o tratamento hormonal pós-operatório pode ser considerado para controle da endometriose e redução do estímulo hormonal cíclico. A escolha do método depende de sintomas, tolerância, contraindicações, desejo reprodutivo e avaliação médica.
Em relação à prevenção específica de recidiva de endometrioma, ainda existem lacunas na literatura sobre qual método hormonal é superior. Por isso, a decisão deve ser individualizada, evitando a ideia de que uma opção serve para todas as pacientes.
O acompanhamento após a cirurgia também é importante para monitorar sintomas, exames de imagem e plano reprodutivo, principalmente quando a paciente ainda deseja engravidar.
Quando procurar avaliação especializada
A avaliação especializada é importante quando o endometrioma gera dúvidas sobre cirurgia, fertilidade, reserva ovariana, FIV, congelamento de óvulos ou suspeita de doença profunda associada.
Endometrioma bilateral.
Endometrioma associado a dor pélvica importante.
Baixa reserva ovariana ou AMH reduzido.
Desejo de engravidar agora ou no futuro.
Cirurgia ovariana prévia.
Suspeita de endometriose intestinal, urinária ou ureteral.
Dúvida entre operar, acompanhar, fazer FIV ou congelar óvulos.
Exames com opiniões divergentes sobre a conduta.
Essas situações não significam que a cirurgia será obrigatória. Elas indicam que a decisão precisa ser planejada com cuidado, considerando a extensão da doença, a função ovariana e os objetivos reprodutivos da paciente.
Mensagem principal
A cirurgia para endometrioma de ovário não deve ser vista apenas como a retirada de um cisto. Ela exige planejamento, mapeamento da pelve, avaliação da reserva ovariana e técnica cuidadosa para reduzir o impacto sobre o tecido saudável do ovário.
Em algumas pacientes, a cirurgia é o melhor caminho. Em outras, pode ser mais prudente acompanhar, priorizar reprodução assistida ou discutir preservação de fertilidade antes do procedimento. A melhor decisão é aquela que considera o caso completo, e não apenas o nome do diagnóstico.
Perguntas frequentes
Como é feita a cirurgia para endometrioma de ovário?
Geralmente por videolaparoscopia ou cirurgia robótica em casos selecionados. O cisto é esvaziado, a cápsula é separada do tecido ovariano e o sangramento é controlado com cuidado para reduzir impacto no ovário.
Toda paciente com endometrioma precisa operar?
Não. A cirurgia depende de sintomas, tamanho e características do cisto, reserva ovariana, idade, desejo reprodutivo e presença de endometriose profunda associada.
A cirurgia de endometrioma pode reduzir a reserva ovariana?
Sim, pode reduzir em algumas pacientes. O risco é maior em situações como endometrioma bilateral, baixa reserva prévia, cirurgia ovariana anterior ou dissecção mais difícil.
Quando considerar congelamento de óvulos antes da cirurgia?
Pode ser considerado quando há baixa reserva ovariana, endometrioma bilateral, idade reprodutiva mais avançada, cirurgia ovariana prévia ou desejo de gravidez futura.
Retirar a cápsula reduz a recidiva?
A cistectomia pode reduzir o risco de recidiva em comparação com drenagem e ablação, mas pode ter maior impacto sobre a reserva ovariana. A técnica deve ser individualizada.
O DIU hormonal evita recidiva de endometrioma?
O papel do DIU hormonal na prevenção específica de recidiva de endometrioma ainda não é totalmente estabelecido. A escolha do tratamento pós-operatório deve ser individualizada.
Quer entender mais sobre cirurgia para endometrioma de ovário? Assista ao vídeo completo do Dr. Alexander Kopelman sobre o assunto.
Glossário: termos importantes sobre cirurgia para endometrioma
Endometrioma
Cisto de endometriose localizado no ovário. Pode estar associado a dor, infertilidade, aderências e preocupação com a função ovariana.
Reserva ovariana
Estimativa da quantidade de folículos disponíveis nos ovários. É avaliada por exames como AMH e contagem de folículos antrais.
AMH
Hormônio antimülleriano. É usado como marcador de reserva ovariana, especialmente em contexto de infertilidade, endometrioma ou planejamento cirúrgico.
Cistectomia
Técnica em que a cápsula do endometrioma é retirada do ovário. Pode reduzir recidiva, mas exige cuidado para preservar tecido ovariano saudável.
Ablação
Técnica que trata a parede do cisto sem retirar toda a cápsula. Pode ter impacto diferente sobre reserva ovariana e recidiva, conforme o caso.
Hemostasia
Controle do sangramento durante a cirurgia. No ovário, deve ser feito com cuidado para reduzir dano térmico e preservar vascularização.
Endometriose profunda
Forma de endometriose que infiltra estruturas pélvicas, podendo acometer ligamentos, intestino, bexiga, ureter e região atrás do útero.
Recidiva
Retorno do endometrioma ou dos sintomas após tratamento. Pode ocorrer mesmo depois de cirurgia adequada, por isso o seguimento é importante.
O Prof. Dr. Alexander Kopelman é Médico Ginecologista — CRM-SP 103.944 — com RQE 945031 em Endoscopia Ginecológica e RQE 945032 em Reprodução Assistida. É MD, MSc e PhD pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Foi Professor Adjunto do Departamento de Ginecologia da UNIFESP/EPM entre 2019 e 2024 e atualmente atua como Colaborador Científico e Professor Voluntário, com atuação no Ambulatório de Endometriose. Tem atuação em endometriose profunda, dor pélvica crônica, endometrioma, adenomiose, infertilidade, reprodução humana, preservação da fertilidade, cirurgia ginecológica minimamente invasiva e cirurgia robótica. É Console Surgeon certificado em Cirurgia Robótica Da Vinci Xi pelo IRCAD América Latina. Atende em São Paulo, na Clínica Evince, e realiza procedimentos cirúrgicos nos hospitais Israelita Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.
Conteúdo revisado clinicamente pelo Prof. Dr. Alexander Kopelman em 2026-07-02.
Aviso médico: este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica presencial ou avaliação individualizada. Cada caso deve ser analisado por profissional habilitado.
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